sem cores em technicolor
 


Pelo menos, o horário nobre se mantém

Os dias estão cada vez mais apáticos. A indignação aumenta e o povo continua sentado em frente à televisão assistindo “vale a pena ver de novo”, e esperando o quase divino “boa noite” de todos os dias. O salário aumenta em cinco por cento e todos se dão por felizes, o governo enganou o bando de idiotas mais uma vez, e logo, nos damos por convencidos. Enquanto isso, a gasolina aumenta, o álcool aumenta, a alface e o milho aumentam também; o iptu, o ipva, e todos essas siglas que ninguém mais sabe o que significa, aumentam. Eu paro para pensar e vejo que tudo aumentou. Tudo; menos meu pau, infelizmente.
Já o que não aumenta, só decai, nem consegue se manter. A produção artística no país é inócua, a cultura importa costumes de outros países sob a bandeira da diversidade, mas no fundo, estamos nos perdendo, ser brasileiro virou uma bagunça tão grande, que tem muito alemão por ai que não sabe dizer nem “me passa uma cerveja” se dizendo brasileiro de raça.
O país que um dia fez cinema com gosto, com cheiro e com cor de revolução, que criou a bossa-nova e a tropicália, que já teve Drummond, Mario Quintana, Manuel Bandeira, e tantos outros; hoje não passa de uma sombra, ou melhor, sombra não, o Brasil de hoje é apenas um rascunho mal feito do que era há tanto tempo atrás. Falem mal da ditadura, mas ela foi capaz de movimentar esse país.
Hoje a ditadura que existe é muito pior, ela não é instituída e todos tapam os olham fingindo que as coisas estão em seus devidos lugares. Claro, é mais fácil desse jeito, ninguém precisa convencer ninguém de que existe algo pelo que vale a pena lutar. Quem vai se dar ao trabalho de inovar algo se não há necessidade de mudar nada. Lutar por melhorias, não, não é necessário, se o jornal diz que o país vai tão bem, eu é que não vou discordar.
Lá fora é que a coisa aperta; olha só, Israel destruindo o Líbano, quase sem motivo e nós aqui, nos preocupando com essas besteiras, fome, péssima educação, uma guerra civil não declarada acontecendo nas metrópoles, isso não é problema de verdade. As crianças que morrem de fome no Líbano sim, elas são importantes; enquanto as que morrem de sede no nordeste, isso não é problema nosso. Brasileiro que é brasileiro é patriota até o final.
Chegamos ao ponto em que tudo explode de vez ou começa a melhorar. Não sei porque, me sinto pessimista em relação a isso. Eu bem que poderia fazer algo, mas se vai dar errado, pra que começar não é? Viu, sou tão brasileiro. Em algum lugar, perdido por ai, deve haver alguém que não seja tão brasileiro assim, e eu acredito que esse infeliz, possivelmente, vai ser capaz de mudar algo. Vou esperar.
Enquanto não aparece nenhuma pessoa para fazer o que tem de ser feito, vou assistir o Jornal Nacional e torcer, torcer muito pra ver se pelo menos, o meu pau aumenta.



 Escrito por senhor.pinto às 00h41
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O cavaleiro inexistente ou a fábula da consciência

Italo Calvino lê seu tempo através de fábulas alegóricas, com personagens incrivelmente distantes do homem ao mesmo tempo em que se aproximam do que existe de mais humano. Sendo o último volume da trilogia intitulada ‘Nossos Antepassados’, O Cavaleiro Inexistente descreve a história de um cavaleiro que além de sua armadura, contava apenas com a confiança que possuía em sua condição no mundo. Uma consciência e sua certeza tão absoluta em seu papel como paladino justo e fiel que a única forma de desaparecer seria tendo seus valores colocados a prova.
Além deste cavaleiro singular, são apresentados no texto outros personagens, como o escudeiro Gurdulu, que apesar de existir, não tem essa certeza e portanto se perde a todo o momento. Rambaldo, o jovem que descobre o mundo e o amor em meio às dúvidas da guerra e da vingança e também Torrismundo, que busca uma forma de se afirmar. E por último temos Brandamante, uma cavaleira que mesmo tendo todos aos seus pés, busca o impossível.
Todos personagens de Calvino se apresentam dentro de um contexto fabuloso, mítico, e através do texto irônico e ágil, o autor cria uma novela de cavalaria, onde o que menos importa são os feitos. Aguilulfo é visto como a antítese do cavaleiro, não por ser desleixado, sem-honra ou desorganizado, mas exatamente por ser o oposto disso ao extremo. Odiado por seus companheiros, assim que sua honra é botada em cheque, ninguém, inclusive o imperador Carlos Magno, se dá ao trabalho de contestar, afinal a perfeição do cavaleiro que não existe é, no mínimo irritante.
O texto simples e fácil de Italo confunde, pois é tão repleto de interpretação que em uma simples leitura não é possível extrair tudo o que o autor quis colocar. No primeiro capítulo da trilogia ‘Nossos Antepassados’, Calvino ironiza o maniqueísmo, numa crítica ácida, as visões de bem e mal cristãs. Em O Cavaleiro Inexiste, ele vai além, criticando todos os extremos morais de Aguilulfo, e dando razão à incerteza de Rambaldo, criando o personagem apenas humano, perdido na incerteza que o cerca. O mesmo acontece com Torrismundo, que é exaltado por ser humano e imperfeito.
Um momento em que se mostra bem presente essa crítica de Calvino ao que é além do homem, pode ser vista no momento em que Torrismundo cruza com a Sagrada Ordem dos Cavaleiros do Santo Graal. Os guerreiros da ordem se encontram num estágio de êxtase divino, alguns não se alimentam e vivem em um estado além, o ancião responsável por se comunicar com os profanos diz que Torrismundo deveria se concentrar e buscar a iluminação e o amor do Graal. O rapaz até se empenha nisso durante alguns momentos, mas logo desiste, aborrecido. Ao invés de se focar na busca pela iluminação, ele quer respostas que possam sanar sua curiosidade.
Mas o verdadeiro triunfo da imperfeição humana sobre os cavaleiros da ordem cheios de moral e virtude, se dá quando estes atacam a vila que lhes deveria pagar tributo, sendo que não há mais comida nem para alimentar as crianças. O jovem toma o lado dos camponeses e luta com eles enfrentando a ordem. Aqui se torna evidente a ligação do autor com o partido comunista, o embate de classes onde a ordem sagrada é vista como a burguesia que oprime de forma desumana o proletariado.
Logo, Aguilulfo não passa de um ser egoísta, vazio, que se presta apenas a sua auto-satisfação, estando lado-a-lado com a Sagrada Ordem do Santo Graal, os opressores dos homens dotados de vida, de sentimentos, de humanidade. A partir desta ótica, o texto de Calvino se torna atual, pois quantas vezes não vemos burgueses demagogos preocupados apenas em falar e falar, sem se preocupar o mínimo com o outro. Tantos cavaleiros inexistentes são vistos por ai, trajando suas armaduras impecáveis e escondendo o completo vazio interior. Para eles, o outro não tem valor e só param mediante seus objetivos.
Assim se reconhece um grande autor, em pouco mais de cento e trinta páginas, Italo Calvino cria uma alegoria que diz tanto respeito aos nossos dias que é difícil trabalhar uma interpretação para seu texto. Cada personagem, cada passagem, cada ato, parece estar embutido de tantos significados que apenas uma leitura é pouco para compreender tudo o que o autor quis elucidar. O cavaleiro inexistente demonstra a necessidade de sempre se estar relendo os clássicos, na tentativa de compreende-los e em muitos casos isso se mostra como uma atividade muito mais complicada do que se parece.



 Escrito por senhor.pinto às 01h23
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 20/08/2006 a 26/08/2006
 13/08/2006 a 19/08/2006




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